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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Dia de festa?

Aniversário diferente, com sabor de despedida. Bolo doce, gostoso, mas com sabor final um pouco amargo. Vontade de se rasgar na pista contrastando com o desejo de ficar quieta no canto, em casa, sem falar com ninguém.
Não estava melancólica, só queria que fosse um dia normal, como qualquer outro. Não sentia, como nos anos anteriores, que era o seu dia. Sabia que era o prenúncio da partida, o começo do fim de um ciclo. Tá certo que era pra começar outro, mas a coragem (ou a falta dela) oscilava continuamente. Ora queria que os dias voassem, ora pedia pra fugir da decisão.
O fato é que a hora sempre chega, assim como as velinhas aumentam todos os anos e os bolos sempre têm um sabor diferente, mesmo quando feitos pelas mesmas doces mãos que a acalentavam desde bebê.
Agora sim começa a ficar melancólica, pensando nas despedidas, na saudade já antecipada, na solidão e no caos interno, no medo... Sabe que faz parte do amadurecimento, mas precisa doer tanto, precisa castigar com mais força do que já foi o adolescer?
Enfim, como bem disse uma velha companheira, o bom filho à casa torna. Está na hora de regressar do sonho amazônico e se inserir na realidade cosmo-marítimo-musical que a espera. É apagar as velinhas e ver no que vai dar.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Panela velha é que faz comida boa?

O orgasmo masculino é explícito, evidente e líquido. O feminino é um mistério, inclusive para muitas de nós. Mas, por incrível que pareça, a tendência é que, conforme os anos passam, as névoas se dissolvam um pouco mais... Além de repleto de mistérios, nosso prazer foi vitima de preconceitos durante toda a história. Já começa com a lenda de Lilith, a primeira mulher de Adão, que teria sido expulsa do Paraíso porque não aceitava ser passiva durante as relações sexuais. Pode? O pior é que a perseguição cristã ao gozo feminino não ficou por aí: na Idade Média, as mulheres que “chegavam lá” eram consideradas bruxas e iam direto pras chamas (da fogueira e do inferno). Tsc tsc... Não é à toa que com toda essa carga ideológica muitas mulheres acabam demorando pra descobrir o que há demais numa relação sexual. Muitas morrem sem saber o que é uma boa gozada nem o porquê das amigas gostarem de sexo! Olhe bem para a foto acima. Os lábios permanentemente úmidos, os olhos semi-cerrados e delineadíssimos, o corpo de violão mais sexy e fotografado da década de 1950... Marilyn Monroe reinou soberana nas telas e nas fantasias masculinas desde 1953, quando fez sua primeira protagonista, no filme Niagara, até a sua morte, nove anos depois. Era o sexo em forma de mulher, não tanto pelas suas personagens, loiras bobinhas e aproveitadoras, mas pela imagem que cultivava. Na ultraconservadora América dos anos 50, na qual a imagem da mulher era a dona-de-casa perfeita de saias rodadas, declarar usar apenas duas gotas de Chanel nº 5 para dormir era como acender o pavio de um coquetel Molotov. De fato, Miss Monroe casou várias vezes, colecionou amantes, era desejada no mundo todo. Mas declarou ao seu analista, em 1961, que nunca conseguira ter um orgasmo. Como? PAREM AS MÁQUINAS! Marilyn Monroe, a mulher que alimentava as fantasias sexuais, capa da primeira Playboy da história nunca tivera um orgasmo. Na época da sua morte, que completa 45 anos no próximo dia 05, a atriz ainda estava se descobrindo, a pedidos do analista, com a boa e velha masturbação. “Nunca chorei tão forte quanto na primeira vez em que gozei de verdade”, declarou ela. Se o mito morreu sem conseguir chegar lá em uma relação a dois, isso não se pode afirmar com certeza. Mas o paradoxo Marilyn ainda é realidade para muitas mulheres. A gostosona da sua vizinha, que atrai todos os olhares com as calças gang justíssimas e decotes na cintura mostrando o corpo esculpido a fome e horas de academia, pode ser pura propaganda enganosa. O que acontece, na verdade, é que com toda aquela coisa do sexo ser visto como pecado, acabamos levando um caminhão de fantasmas para a cama e, com isso, não há relaxa e goza que dê jeito... Junte isso às oscilações hormonais, e todos aqueles males modernosos: ansiedade, fobias, estresse, depressão e aquela conhecida neurose pelo corpo de modelo e pela vida profissional ultra-bem-sucedida... Pobre orgasmo! Como dá as caras desse jeito? Calma, não entre em desespero. Isso passa! Balzac, por exemplo, mesmo lá no longínquo século XIX, já falava sobre as vantagens do amadurecimento: “Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer”. Em suma: a partir daí é que a brincadeira fica boa! Prova disso são diversas histórias de mulheres que só conseguem experimentar o orgasmo anos após a primeira vez... Francy, por exemplo, casou virgem e apenas nove anos depois do casamento conseguiu saber por que sexo era bom: “Fui ao ginecologista diversas vezes e só tive resultados quando fui encaminhada pra terapia. Minha vida mudou. Percebi que desconhecia totalmente meu corpo, não tinha idéia nem de como era a minha vagina. Passei a me descobrir, a olhar meu corpo e a desenvolver minha sexualidade. Nem sabia o que era masturbação, só descobri aos 32 anos e foi assim que tive meu primeiro orgasmo. Meu marido, ainda bem, sempre me apoiou”. Já Helena, de 54, sempre teve uma boa relação com o corpo. “Nunca tive problemas, adoro sexo. Acontece que, conforme os anos passam, as preocupações diminuem: não há mais medo de engravidar, os filhos também saem de casa, não existem mais aquelas preocupações chatas de “vencer na carreira”, etc. e, com isso, você tende a relaxar e aproveitar cada vez mais. O sexo fica mais duradouro, mais centrado no prazer de dar e receber. Não há tanta pressa com as preliminares, o que conta mesmo é a imaginação. Com tudo isso, é mais fácil de se “chegar lá” ainda mais vezes. O que acontece é que a gente precisa ter mais paciência não só com a ereção, que demora um pouquinho mais, como também com a nossa lubrificação, que com o tempo diminui. Agora imagine um casal de vinte e poucos anos vivendo isso? Ninguém transava mais! Aos 50 não há pressa, só desejo de ser feliz”. É uma questão de manter-se atenta aos sinais do corpo. Para isso, cada período de nossas vidas funciona como uma espécie de escola. Enquanto o pessoal pensa que a juventude é a "época áurea do sexo", a verdade é que com o passar dos anos, as coisas tendem a ser mais satisfatórias, principalmente porque a gente aprende a dar mais a cara a tapa, a errar para mais tarde acertar e a ver o quanto isso é bom, sem inibições. É na maturidade que a mulher se apropria do prazer. * com a colaboração de Lady in White.
Os nomes das entrevistadas são fictícios para preservar suas identidades.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Uma questão de gozo

Noite de festa... Não estava tocando exatamente o tipo de música preferido de Adriana. Na verdade, estava ali porque não queria ficar só. Como era daquele ritmo que as amigas gostavam, foi junto. O que ela não previu foi a presença de Leandro... Eles já se conheciam. Muito bem, até. Um pouco por conta desse “amplo conhecimento”, andavam se estranhando. E foram àquela festa com o intuito de conhecer gente nova e beijar novas bocas... Leandro estava frio, Adriana fingia indiferença. Ele dançava com uma das amigas, ela conversava com outra. Até que Tati fala: - Dri, o Fernando tá ali! - Sério? Vou lá! Fernando era amigo de tempos, amigo de copo de cerveja, de aulas de matemática no colegial... Nunca teria nada com ele, nem fazia o seu tipo, queria só botar o papo em dia depois de anos sem se encontrarem. E era incrível como parecia que o tempo nunca passava pra eles... Muitas cervejas e cigarros depois, Tati aparece: - Já perguntaram por ti duas vezes. - Sério? Ah, deixa na dúvida... - Eu disse que estavas com um amigo. - Tu és péssima mesmo! Mais de uma hora de sumiço depois, Adriana volta pro meio da turma. Leandro, com cara de ponto de interrogação, puxou-a pra dançar. Ela nem teve reação, meio bêbada que estava depois dos copos de cerveja literalmente entornados com Fernando. Só sentiu que ele a arrastou pro meio do salão, longe da turma, e ao fim da música, num cúmulo de cretinice, soltou: - Eu não sei o que tu tens, Dri, mas não consigo resistir ao teu cheiro... Não se sabe quem agarrou quem, nem como eles foram parar no meio daquele bando de mato... A ação foi rápida: ele baixou um pouco o jeans dela, virou-a de costas e ela sentiu o desejo dele, com força. Mal conseguia se equilibrar naquele misto de sensações confusas, só sabia que era bom demais... Um êxtase atrás do outro, o quê que tava acontecendo? Ah, sim, Leandro sabia como lidar com ela, e era isso que sempre a enlouquecia... O medo de ser pega nem passava por sua cabeça, pelo menos até a hora em que um carro manobrando jogou o farol alto pra direção deles. - Pára, pára tudo! - Como assim? Eu ainda não terminei. - Como assim nada, eu já terminei, vamos embora. Adriana deixou Leandro na mão, mas gozou por todas as antepassadas que “deram uma sem chegar lá”...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O Jambeiro

Aquele jambeiro sempre me encheu de recordações. Embora só o visse durante quinze dias a cada ano, nossa! Quantas histórias ele tinha pra contar... Ah, ele era testemunha dos meus suspiros e versos para o rapaz de olhos castanhos que morava no sobrado branco. Era guardião dos morcegos que tanto me assustavam. Era cúmplice na espionagem da vida do meu "futuro namorado" (namoro que não saiu dos sonhos).
Era companheiro ao assistir comigo da sacada os enterros que ocorriam no cemitério local. Era confidente, ao ouvir meus desabafos à minha melhor amiga, neta da dona da casa. Era amigo, ao fornecer sombra naquelas tardes insuportáveis de verão. Jambeiro, jambeiro... Quantas e quantas vezes você nos viu entrando e saindo em casa, chegando em pleno nascer do sol e escapando quando a amiga lua há muito fulgurava no horizonte! Presenciou brigas, beijos, choros, risadas, broncas, brincadeiras... Durante algum tempo sumi. Descobri outras praias, cidades, labirintos para me enveredar. Mas saiba que não esqueci, jambeiro amigo, o que testemunhastes para mim. E qual não foi minha dor ao constatar, em meu retorno, que lá não estavas mais... Caístes, jambeiro... Seria o peso dos seus anos ou dos meus pecados?

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Vento de maio

Trânsito infernal. Um congestionamento básico às sete da manhã, o de praxe. Resolvo ligar o rádio pra tentar relaxar e adivinha que música toca? Vento de maio... Embora estejamos em outubro, as recordações começam a vir à tona... E lá vou eu cantarolando: Sol, girassol e meus olhos ardendo de tanto cigarro e quase que eu me esqueci que o tempo não pára nem vai esperar... Vento de maio, rainha do raio de sol... (*) E lá vêm as lembranças... Pelo menos não doem, pelo contrário: chegam em mim como soprinho gostoso, paliativo pro calor do engarrafamento... Há cinco meses, meu chefe pediu que eu fosse a um congresso em Buenos Aires, na área de criação, que é justamente o segmento com que trabalho. Meio a contragosto, já que ele me avisou em cima da hora e tive que desmarcar um monte de compromissos, lá fui eu pra capital argentina dois dias após aquela chamada. Já no avião, senta ao meu lado um jovem senhor. Devia ter uns quarenta anos, olhar doce, cara de quem adorava Ella (não me pergunte como é essa cara, é instintivo!)... Eu sou tímida, detesto puxar assunto, mas sabe lá Deus por qual loucura do destino começamos a bater papo e, só com aqueles momentos do vôo, já parecíamos amigos de infância! Juro que nunca imaginei que poderia me divertir tanto em uma semana de congresso, nem nos tempos da faculdade! Quando não estava em meio às chatices de palestras e debates, ligava pro meu amigo que, como bom e simpático argentino, me ciceroneava pelas ruas portenhas. Os versos de Jorge Luis Borges começavam a fazer sentido na minha cabeça: A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y como el aire. Eterna sim, senão não estaria aqui, sem precisar de tango, contando só com a voz da Elis Regina... Meu amigo, quando não estava trabalhando, me punha a fazer os programas mais variados, na maior parte das vezes fora dos roteiros turísticos corriqueiros: piqueniques, show de tango alternativo, brincar de bola na praça, cantar absurdos no meio da rua, comer pipoca sentindo o gélido ventinho de outono em nossas faces... A semana terminou, chegou a hora de voltar. Na despedida, ele foi me deixar no aeroporto e me entregou Vento de Maio copiada a mão e gravada em uma fita cassete. Disse que ao ouvir, lembrava de um dos nossos primeiros passeios, quando a cantamos em uma praça debaixo de chuvisco, sem medo algum do ridículo. Vez ou outra chegam umas cartinhas dele. A última tem uma previsão de visita à terra brasilis nas minhas férias. Perfeito! Só preciso lembrar de alguma canção que fale de janeiro...
(*) Composição de Telo e Márcio Borges.

sábado, 7 de julho de 2007

Burros, grilos e outros bichos

Durante um súbito acesso após ouvir dezenas de vezes Perfect Day, do Lou Reed, não me contive e liguei pra ele. Senti uma necessidade absurda de ouvi-lo, por mais que não fosse escutar juras de amor nem trechos nerudianos... Era só o tom de voz, aquela fala pausada, os acordes que sempre me soam melodiosos... Tá, tudo bem, Lady e eu entramos em consenso dia desses que se o amor não fosse burro, as mulheres seriam lésbicas e procriariam através de métodos artificiais! Mas atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou perdidamente, seja por um bom moço ou – pior! – por um canalha, e não foi correspondida... Amanhã faz um ano que trocamos nosso primeiro beijo. Lógico que nem toquei nesse assunto, nosso caso è finito há um bom tempo. No entanto, maldita burrice amorosa, ainda suspiro pelo moçoilo que me ensinou a ir às nuvens ouvindo Miles Davis em questão de dias. Ao lado dele, muitas vezes me senti burra, mas nada que não superasse em pouco tempo e o fizesse se sentir um panaca depois que peguei as manhas. De acordo com um amigo que atua como meu psicólogo pessoal (sem sê-lo), tenho um sério problema que me faz ver que o amor só é burro de vez em quando: eu só me apaixono por homens extremamente inteligentes e minha paixão dura o tempo suficiente para que eu sugue todo o conhecimento deles que me interessa. Depois disso, descarto. Então provavelmente não esqueci o moçoilo porque ele não me deu tempo de sugá-lo inteiramente, faltam algumas coisinhas pra aprender com ele. Me senti meio monstra depois dessa constatação e, pior, veio de brinde aquela célebre dúvida: meu Deus, morrerei só ou surgirá uma wikipédia cultural ambulante em minha vida que terá conhecimento suficiente para ocupar o resto dos meus dias??? Marquei de ver amanhã o moçoilo que não foi inteiramente sugado, vou devolver um Cd que está comigo. Uma nova chance? Hahahaha, sonhei. Acho que consegui me interessar por um homem esperto o suficiente pra enxergar minhas nuances tenebrosas... Hein? Quê que eu tô falando? Homem esperto? São todos tão previsíveis... O problema é que ele me assusta sem nem saber e desarma meu lado negro da força. Qual gatinha assustada, me escondo debaixo da mesa mas, é claro, armo o próximo bote pra brincar com minha presa.